Foi publicado no Estadão de 27/05/2026 um texto sob a seguinte designação: “Brasil alcança o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) muito alto pela primeira vez”. Em 2024 foi alcançado o índice 0,805, numa escala de 0 a 100. Há 30 anos o IDHM era muito baixo, 0,555.
Embora o índice fosse divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento (PINUD), os resultados foram calculados a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad Contínua) do IBGE, considerando três indicadores: longevidade, taxa de escolaridade e renda da população.
Sem querer ser negativista, não posso concordar com essa pesquisa como indicadora de um desenvolvimento muito alto, com relação aos índices de escolaridade e renda das pessoas.
Não há dúvida de que há uma alta participação de crianças frequentando a escola, mas o ensino deixa muito a desejar. Nos primeiros anos do ensino fundamental, muitas crianças levam anos para se alfabetizar. Três em cada dez pessoas de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais. E esse índice se mantém desde 2018.
Aquelas crianças cujos pais podem colocá-las em melhores escolas, no futuro obterão os melhores empregos e aqui reside outro fator de desigualdade.
Outro fato a ser considerado é a renda da população. Segundo o IBGE, o rendimento domiciliar per-capita em 2025 era R$ 2.316,00 mensais, sendo o menor do Estado do Maranhão, R$ 1.219,00; e o maior, o do Distrito Federal, R$ 4.538,00. Esses rendimentos ainda estão avultados pela influência do serviço público. Convém salientar que os dados constantes da matéria em causa são bem diferentes e menores que os publicados costumeiramente pela mesma fonte, de que fiz uso.
Nem vou discutir os valores de renda da população, mas se fosse tão alto assim, 82% das famílias não estariam endividadas e metade delas, inadimplentes, sem recursos até para pagar as contas de água e luz e apelando para o FGTS, que deveria ser um recurso reservado para a compra da casa própria.
No final, a matéria do jornal cita as desigualdades entre regiões, raças, mulheres e homens. O Brasil permanece preso em armadilhas de baixo dinamismo e padrões persistentes de exclusões, o que é uma verdade.
Os dirigentes do IBGE que me perdoem, mas não posso aceitar como verdadeira essa pesquisa quanto ao alto desenvolvimento do País.
